...
Sinto tantas vezes que não marcho ao mesmo ritmo
E não marcho na mesma direção que o resto das tropas
Como um desalinhado...

João Miguel, O Pássaro do Sul

06/09/2009

Pensamentos São Asas


Pensamentos são asas,
equações sem numeros,
sentimentos sem traduçao,
sâo caminhos de brasas
tortuosos e imaturos,
partos por fazer
na boca duma razão.

Pensamentos são chuvas,
conjugações a crescer,
medos enlaçados,
expressões, cachos d'uvas,
o mais intimo a nascer,
uma ansia a explicar
sentidos afogados.

Pensamentos são braços
que te puxam, apunhalam
acordam e adormecem,
sonhos que me empurram
na procura da força para
desenhar os teus traços
a luz, no caos do desdém.

João Miguel, O Pássaro do Sul

2 comentários:

Kanauã Kaluanã disse...

Disseste tão bem, meu anjo.
Pensamentos são a parte que se desloca de nós, sem nos mutilar, apenas regenerando-nos... e falo do verdadeiro pensar, o que quebra algemas, mesmo ferindo os pulsos... o que só obedece ao comando da liberdade.

São, sim, a única maneira humana de voar.

Adoro ler as leituras que tu fazes.

És lindo, sabes.

Kanauã Kaluanã disse...

Meu ANJO LINDO, isto, a Lya Luft escreveu para ti:

O homem que criou asas

Era um homem, um homem comum, que um comum destino parecia controlar inteiramente. Um animal bem treinado.
Um dia, sentiu um incômodo nos dois ombros, distensão muscular, má posição no trabalho… Foi piorando e resolveu olhar-se no espelho, de lado, inteiro e nu depois do banho: não havia dúvida, duas saliências oblíquas apareciam em sua pele abaixo dos ombros. Teve medo mas decidiu não comentar com ninguém. [...]
Curioso mas sem sofrer – pois não doía -, foi observando aquilo crescer.
E pensava:
Nem adianta ir ao médico, porque se for um tumor (ou dois) tão grande, não tem mais remédio, é melhor morrer inteiro do que cortado.
Certa vez, quando se masturbava no banheiro, na hora do prazer sentiu que elas enfim se lançavam de suas costas, e viu-se enfeitado com elas, desdobradas como as asas de um cisne que apenas tivesse dormido e, acordando, se espojasse sobre as águas.
Ficou ali, nu diante do espelho, estarrecido.
Agora ele não era apenas um homem comum com contas a pagar, emprego a cumprir, filhos a levar para o parque, horários a cumprir: era um homem com um encantamento.
Eram umas asas muito práticas aquelas, porque desde que usasse camisa um pouco larga acomodavam-se maravilhosamente debaixo das roupas. Em certas noites, ele saía para o terraço, tirava a roupa e varava os ares…[...]
As coisa se complicaram quando, já habituado à sua nova condição, o homem-anjo olhou em torno e, sendo ainda apenas um homem com asas, sentiu-se muito só. E começou a pensar nisso. E olhou em torno e se apaixonou.
Na primeira noite com sua amante, esqueceu o problema, tirou a roupa toda, e quando ela começava a apalpar-lhes as costas o par de asas se abriu, arqueou-se unindo as pontas bem no alto por cima dele, na hora do supremo prazer.
Mas essa mulher/amante não se assustou, não se afastou.
Apertou-se mais a ele, e dizia: vem comigo, vem comigo, vem comigo.
E abriu suas asas também.

Lya Luft (Historias do Tempo)

...

Vem comigo...

Amo-te, meu homem de asas.