...
Sinto tantas vezes que não marcho ao mesmo ritmo
E não marcho na mesma direção que o resto das tropas
Como um desalinhado...

João Miguel, O Pássaro do Sul
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24/05/2020

Questão

Nos primórdios a religião dava a segurança de respostas a questões de todo o tipo, mas com o crescimento do pensamento lógico e do conhecimento a ciência ocupou esse espaço.

Hoje em dia, a ciência é um campo cada vez maior de respostas seguras e as religiões campos de dúvida, como demonstra o facto de um "Deus", seja o cristão ou o islâmico para exemplificar, ser adorado e entendido de tantas formas diferentes levando à criação de tantas seitas diversas, assim como os escritos "sagrados" serem lidos e entendidos de várias formas, das mais moderadas às mais literais.

Não terá sido neste confronto com a nova realidade que surge o fundamentalismo religioso em força como resposta a esta crise de identidade dentro das crenças?

João Miguel Alves

06/11/2015

Ingenuidade

É interessante ver a ingenuidade de muita gente que para se escusar ao pensamento político se esconde com pedras na mão dizendo "são todos iguais". Todos somos animais políticos. A política e as interferências que tem nas nossas vidas estão por todos os lados. Toda a opção é política, é inevitável. Quem se escusa a ela é cúmplice de quem tem o poder e sendo-o é arma política. Partidariamente ou em movimentos, em sindicatos ou associativamente, todos tendem a querer ter influência política, mesmo sem pensá-lo conscientemente.
Penso que para bem do planeta e da humanidade todos deveriam assumi-lo, ter consciência deste facto. Mas sempre claro, sem se tornarem em doentes bipolares políticos, que é quando pensam que "se alguém não é isto só pode ser aquilo" sem conseguir visualizar e aperceber todo o espectro de soluções e ideologias. E digo ideologia e não idealismo ou demagogia, para não haver confusões (há quem confunda).

 João Miguel, O Pássaro do Sul

12/08/2015

Esquerdas

Na realidade existem duas esquerdas, uma "esquerda" que é propagandeada pela maior parte dos mass media, que é a "esquerda" do sistema que se pretende ver preservado, geralmente o partido apelidado de centro-esquerda duma ditadura bipartidária, ou a verdadeira esquerda, que luta por uma mudança e onde a terra e a dignidade do ser humano são a prioridade...
Triste, mas muita gente ainda não notou a diferença.

 João Miguel, O Pássaro do Sul

17/07/2015

Auto-Ajuda?

Se existe algo que penso ter ajudado muito à indiferença, egoísmo, passividade de muitos sectores de sociedades pretensamente desenvolvidas, são os livros de auto-ajuda. Proteja-se, evite as más vibrações, pense positivo, ame-se, etc, etc...
É todo um parlapié que apela à inacção social, a um grande egocentrismo e pior, no final só faz com que o "aluno" seja uma pessoa ainda mais fraca, pois que no fundo não aprendeu a enfrentar a vida.

 João Miguel, O Pássaro do Sul

03/05/2015

Harmonia

Pergunto-me porque a palavra "harmonia" quando pronunciada, na maioria das vezes, me soa a armadilha. Porquê o verbo que lhe é associado (harmonizar) me parece significar massificação, globalização. Porquê teológica ou politicamente parece quase sempre usada para subliminarmente colar nas costas dos "outros" o "mal".

 Não são as diferenças uma das maiores riquezas? A diversidade não é farol imprescindível no incessante trabalho de por em causa a cada momento o que somos, de onde viemos e para onde vamos? Não serão outros modos de entender a vida fontes de crescimento? Opiniões variadas, o húmus ideal ao aparecimento de novas ideias? Profundamente a própria essência do belo não tem raiz na percepção das mais diversas tonalidades dos sentidos?

Neste sentido, para mim, harmonizar massificando é morte. Vida é a defesa da diferença, a riqueza cultural, a multiplicidade de belos.

João Miguel, O Pássaro do Sul

30/07/2014

Quero a Pergunta

Assalta-me este cansaço das ideias com o mesmo rosto, todos os dias.
Este Estio que tudo secou, a Invernia que congela o sangue das palavras.
Sinto a vontade de ser, partir, malas aviadas em direcção à pergunta.
Não quero a resposta, são sempre as mesmas, quero a pergunta,
que como chuva de unhas nas minhas costas, me desperte.

Penso até o horizonte me trazer num prato
o sol poente aos olhos incendiados de sangue
e só me resgata o teu braço que grita:
- Vida!

 João Miguel, O Pássaro do Sul

26/04/2014

Grandeza

No 25 de Abril de 74, os capitães, visualizando principalmente Salgueiro Maia, tomaram a iniciativa já tendo combatido na guerra do ultramar, não foram que eu saiba vítimas da PIDE, eram alimentados pelo estado português e puseram suas vidas e carreiras em risco, grandes homens!

 Pensaram e fizeram pelos milhares de mortos, dum lado e doutro, das mulheres abusadas, das mães, mulheres e filhos chorosos da guerra, pelos que não podiam expressar uma opinião, pelos que viam os alimentos racionados, pelos que nasciam condenados a não ter oportunidades porque não eram filhos das elites...

Agiram em nome dum bem maior que o umbigo deles, foram receptáculo às mensagens e sofrimento do povo a que pertenciam, foram mãos dum coração enorme que batia à volta deles! Existe algo de que um português esclarecido, inteligente, aberto se possa orgulhar mais? Para mim não! E português que não valorize o 25 de Abril, tem que ser muito pequeno...

 João Miguel, O Pássaro do Sul

27/03/2014

Dos Infelizmentes

É trágico-cómico haver quem tente condicionar as amizades e relações doutrem, principalmente se a pessoa alvo do condicionamento não teve o mesmo tipo de atitude em relação ao sujeito condicionador. E revela certamente desconhecimento do que é carácter, ou mesmo a falta dele, pois que alguém com personalidade não se deixará condicionar e até porá de lado aquele sujeito, algo que alguém de fortes valores saberia. O nojo acrescenta-se a isto tudo se o sujeito usar a mentira, a calúnia...

 João Miguel, O Pássaro do Sul

27/07/2013

Preguiça

Enoja-me sempre mais a preguiça mental, mãe de todos os preconceitos, educadora dos futuros dogmáticos. Preguiça mental uniformizante e detestável por ser opressora e castradora da diversidade de todos os tipos. A preguiça mental vinda seja da ignorância e pura estupidez, seja das pequenas mentes orgulhosas natas numa suposta superioridade intelectual, cultural ou histórica, que qualquer mente minimamente aberta sabe, o futuro desmente, desmonta e ridiculariza a todo o instante, no crescimento constante duma consciência universal.

 João Miguel, O Pássaro do Sul

21/06/2012

Vanguarda

Dei comigo a pensar que quem se achar na vanguarda de algo, passou logo a ser um conservador. Mal se ache que se está na frente, que o que se faz, pensa ou diz é o mais novo, moderno, inovador, parou-se. Para esse, o que vier passa a ser ou passado ou sem valor por lhe parecer despropositado ou sem sentido - melhor ainda: sem o sentido que preza. O que for renovar um estilo passado, ou uma declinação duma ideia pseudo vanguardista, passa a ser-lhe de mau gosto e este passa a ser uma inteligência orgulhosa, um velho do restelo.

Creio que é preciso estar sempre aberto às fluências...

João Miguel, O Pássaro do Sul

30/05/2012

Mudança

Quem acusa outros de quererem mudar os de seu entorno, cai no absurdo de, o fazendo, querer mudar esses outros também, acusação essa que acontece umas vezes diretamente outras vezes implícita.

Sejam aqueles que acham alguém arrogante por emitir a sua opinião acerca duma situação ou conceito, seja os que se doem por outros amarem ou demonstrarem amor duma certa forma que não é a sua, seja os que simplesmente dogmáticos querem todos a pensar e agir do mesmo modo, o que mais que absurdo seria mortalmente entediante.

Mudar o mundo e/ou as pessoas todos gostaríamos, é algo da matéria do sonho, da cor da utopia que nos corre no sangue, que desejamos mesmo sem crermos estar a fazer algo nesse sentido.

Eu pessoalmente digo que gostaria que as pessoas mudassem na direção de terem mais sentido crítico e poder de reflexão, soubessem responsabilizar-se e responsabilizar, pensassem por cabeça própria, tivessem hombridade assumindo posição e se abrissem à discussão de ideias para o crescimento de todos, para uma maior ética universal.

Isto em contraponto aos que querem todos: ovelhas abnegadas dando a outra face, bonzinhos pela hipocrisia duma educação que sorri mesmo furiosa, comprados pela caridadezinha dos que não sabem ser só coração, calados pela gratidão ao que não pediram ou ao que simplesmente lhes era devido, vergados ao poder autoritário ou ao medo da ameaça implícita.

Isto porque sinto como escreveu um dia  José Saramago:

"Eu direi uma coisa muito clara: não tenho a obrigação de amar toda a gente, mas sim de a respeitar."

João Miguel, O Pássaro do Sul

26/05/2012

Frontalidade


A frontalidade é uma anormalidade nos tempos que correm. Em nossos dias, fala-se para seduzir ou anuir. A frontalidade de hoje é na maior parte das vezes um julgar sem reflexão, demonstrando-se uma sinceridade estúpida, impensada, despida na maior parte das vezes de um senso autocrítico; humana tentação de agredir, mostrar superioridade moral ou intelectual, simplesmente o desfrutar autoritário duma posição. 

Deixou de se ver a frontalidade verdadeira, reflectida, à procura de peito nu pelo crescimento, a troca crua, despida de embalagens, ornamentos, para se traduzir em entendimento acessível e troca de ideias e conceitos em estado puro, básico, o mais perto das raízes possível. O apontar erros em vez de pessoas, querer a verdade sem acusar, desmistificar e desmitificar, chamar as coisas pelo nome, ou procurar a denominação real.
Criação sólida de laços, baseada no cimentar de verdades.


Passou por isso a ter o efeito de assustar e afastar, os que inundados no espirito da era que vivemos, ficaram sem a lucidez de a apreciar. Crê-se, sem pensar, que devemos ser bondosos, simpáticos, poupar as gentes à verdade, não apontar erros, passar a vida afagando a cabeça das pessoas. Em vez de partilhar pontos de vista e crescer, de explorar o mundo de mãos limpas. Gosta-se mais de duelos de luva branca e hipocrisias; exige-se que pareçamos, pelo menos pareçamos, educados e gentis num modo que é sempre o de silenciar as trocas que geram partos, esquecendo que nascimento envolve uma dor, explosão de vida.

João Miguel, O Pássaro do Sul

25/05/2012

Amizades II

Creio que seja por nunca o terem vivido, sentido, ou já terem esquecido o que é, a maneira de funcionar de cada um é diversa e diversa a sua percepção dos factos, mas parece-me seja fácil entender que quando um casal se torna uma unidade, estado supremo de felicidade duma união, o que se passe, se faça ou diga a uma parte, toque "directamente" a outra. Para o bem e para o mal! 

 Amigos, verdadeiros, duma e outra parte, pré união, torcem pela felicidade, conjugam esforços para que assim seja, ou no mínimo, se tiverem dúvidas, não obstaculam. 

 Passado um período, o casal atinge o "Nirvana" e continuar a haver "amigos" que tentam saber noticias através de interpostas pessoas, revelando alguma indiferença a parte da união, insistirem em tratar só com metade, usarem de joguinhos de palavras tentando "envenenar", é insultuoso, degradante, mas acima de tudo demonstração duma grande indiferença pela real felicidade do casal num todo ou mesmo parcialmente.

João Miguel, O Pássaro do Sul

24/05/2012

Exilado em ti

Vemos como somos, dizia Anaïs, perscrutamos nos outros, seus atos, com nossos olhos, reagimos-lhes com nossa pele. Não sou normal, trago sempre comigo esta solidão de saber estar comigo e em mim, que cresceu, como cresci ao ver-me inteiro para lá do eu. E espero anormalidades das pessoas sem coragem de falar à solidão delas. Afastam-se e sinto-lhes a vontade que obedeço de recuar dois, três, quatro passos... Nunca corro atrás de quem foge a esconder-se. Creio que se queira falar. Farejo a lucidez de ver com o coração deles, mas o mergulho alheio em mim é de braços fechados e o meu mar é cego ao seu peito. Como me sinto ensurdecer perante os raios e trovões que os seus silêncios e solidões lhes acenam! A sobriedade escapa-me, embriagado que fico nos caos, caio vertiginosamente na incapacidade amordaçante de ser mais do que eu sou para além de nós, para além dos entendimentos que se escoam neste deserto de vozes e gritos secos e áridos de vontade.

Afugentam-me, escorraçam-me. Caio e corro para esmagar-me no afago úmido do teu abraçar-me, fêmea parte de mim, com todas as tuas teias e pernas, inundando-me de nós nos teus olhos meus, em paz.

João Miguel, O Pássaro do Sul

Amizades

Costumo dizer, e sentir, que sou alguém muito afortunado naquilo que de mais rico possa existir, os afectos.
A Amizade. Não pela quantidade, não acredito que se tenha muitos amigos, pelo menos verdadeiros, mas pela qualidade. Cresci criando um circulo de amigos, em que pelo diálogo, todos se ajudavam a crescer. Onde ninguém se tratava como flor de estufa, onde quando um se sentia mal com algo que outro fazia, não tinha o menor problema em gritá-lo na cara do outro, cresciam todos. Crescemos todos. Somos amigos de pedra e cal. E esse sentimento que tenho, do sopro da deusa vendada, continuou, tendo continuado a conhecer pessoas que são assim e entendem as relações de amizade desse modo. Amizade sem sexos, cores, status, crenças, línguas,  idade...

Não entendo por isso, quem veja uma relação de amizade que não funcione em igualdade nos dois sentidos, sabendo das diferenças que possam haver, mas sem cobrar, ou achar-se de cristal. Para mim é inimaginável que um amigo possa pensar que por ele defender algo com que não concordo, eu não possa criticar o que ele pensa e/ou defende, não imagino que um amigo meu, não ataque um erro meu, por eu ser seu amigo, porque é o erro que é desmascarado, não eu, Eu e ele crescemos. Não imagino alguém ser amigo, fazendo algo e depois cobrando ou imaginando que porque o fez eu deixarei de ser quem sou, para não tocar o seu brilho, isso é falsidade. E depois existe aquela falta de senso auto critico, que imagina que se for em relação a ele, se lhe deve informar possíveis problemas (saúde, preocupações...) mas se for os dele, se lhe deva perguntar...
Irracional...

João Miguel, O Pássaro do Sul

16/05/2012

"Democratas"

Quando alguém que discute política ou ideologia, não consegue apreciar uma opinião se esta não for exactamente enquadrada naquilo que está a dizer ou defender (ressalvo a apreciação de opiniões diametralmente opostas) , para mim fica completamente exposto que tipo de democrata é...

João Miguel, O Pássaro do Sul

15/05/2012

Intelectual


Penso que a palavra intelectual é muito mal empregue. Intelectual deveria ser alguém que pensa, alguém que reflecte e acaba por dizer/escrever algo novo, ou reorganizar o que é dito no modo mais justo não evitando pontos fulcrais, sem medo do polémico, falando de tudo. Um pensamento social, que não se deixa guiar somente por ideologias, por crenças, ou por um populismo ou auto-propaganda fáceis, regurgitando pensamentos populares a um lado ou outro duma barricada. Assim, e porque se está a tornar numa palavra vazia, eu digo que admiro pensadores como Boaventura Sousa Santos, Eduardo Galeano, Noam Chomsky e os homens envolvidos no mundo da política que têm a coragem de dissidirem das forças a que se aliaram, quando em sua consciência não podem concordar com o que essas forças defendem em dado momento. Em suma, homens de corpo inteiro.

João Miguel, O Pássaro do Sul

13/05/2012

Só acredito na beleza que o cego vê.


Tenho um cansaço mais que grande da falta de bom uso dos conceitos e palavras.
E tenho no que se refere a movimentos estéticos, alguma aversão.
Principalmente porque na discussão sobre o belo e a estética, muitos esquecerem a palavra atraente.
O que se procura na maioria dos casos é uma conjugação atraente das palavras, das sonoridades, uma engenharia das letras e sons, que esquece de todo um conteúdo, seja ele até a expressão imagética de estados metafísicos. Muitos escrevem para atrair, para causar efeito, para que seja apelidada de bela a sua escrita.
Creio eu que fruto da época em que vivemos, onde a imagem é tão importante e a essência, conteúdo deixados de lado, desprezados. Tudo isto acontecendo com o apoio dos censores intelecto-culturais que lançam na praça padrões que levam os jovens desta era, com carácter e personalidade em criação ou muito vulneráveis, a expressarem-se de modo muito uniformizado, estereotipado.

Ora para mim, o atraente, nem sempre é belo. Creio que o belo, a beleza seja algo tão forte que emane de dentro para fora, mesmo sem nos atrair à primeira vista. A beleza é original.
Acredito também que será o futuro, sempre ele, o melhor juiz, e que para a posteridade ficará o que resistir, o que valer a pena, o verdadeiramente belo, completamente belo, genuinamente belo.
Eu, só acredito na beleza que o cego vê...

João Miguel, O Pássaro do Sul

Realidade

A realidade é uma selva de espelhos e véus, cegueiras de luz e breu.
Único modo de navegar, a vindima das máscaras maduras e o farejar incessante da verdade,
da beleza para lá do couro, dos espinhos e do que nos esfregam na razão e nos sentidos...

João Miguel, O Pássaro do Sul

Auto - Respeito

Apanhei-me a pensar que quem procura escritos, músicas, filmes ou histórias de figuras públicas onde possam  espelhar os seus actos, fazem-no mais para se desculpar, para se sentir melhor na própria pele do que para procurar obter algum respeito de outros.
Afinal, a vida está cheia de situações similares, as pessoas já as reconhecem, e se alguns ainda falam uns dos outros, vazios nas próprias vidas, outros, mais preocupados em viver, senão ignoram, respeitam ou toleram.
Quantos de nós não passaram por situações em que fizeram e tomaram atitudes que iriam contra os seus desejos, crenças, valores mais íntimos, assomados por uma qualquer cegueira, obsessão, valor imposto socialmente, medo - sempre ele - de estar só - sempre ela - a solidão.
De qualquer modo, creio que a tomada de consciência é sempre essencial, seja por nós próprios, ótimo, ou com ajuda exterior. Afinal, são só sinais de que se está a faltar ao respeito a nós mesmos, a afundar nossa auto-estima...

João Miguel, O Pássaro do Sul