...
Sinto tantas vezes que não marcho ao mesmo ritmo
E não marcho na mesma direção que o resto das tropas
Como um desalinhado...

João Miguel, O Pássaro do Sul

25/10/2009

Assim como assim...



“Tanto ruído no interior deste silêncio: são as vozes dos outros a falarem em mim, pessoas de quem gostei, pessoas que perdi, gente que tenho ainda. Não me parece que herdei muito dos meus pais, dos meus avós: algumas coisas mais ou menos superficiais mas lá no fundo nada. Princípios, claro. Regras. O resto, quase tudo, fiz sempre sozinho. E estive sozinho nos momentos mais difíceis da vida, que sofri na carne como um cão: aquilo que, destilado, aparece nos livros, que são o itinerário de uma aprendizagem e de uma dor, a certeza da vida redimir a morte, da necessidade da alegria, de uma paz intransigente conquistada a pulso. A humilde capacidade de admirar as pessoas, respeitá-las, que tanto tempo levei a conseguir. Olhar nos olhos o que um ano destes não serei. Custa-me a ideia de não escrever, um dia. Do mundo continuar sem mim. De perder corpos, calor: o que ganharei em troca? O meu pai foi-se embora há quatro anos: percebo hoje que existia entre eu e a morte, a defender-me sem saber que me defendia e que a partir de então, quando ela tocar à campaínha, é a minha vez de abrir a porta: não quero chegar à maçaneta a tropeçar, quero mostrar-lhe a casa limpa e pronta. Dizer a quem se achar ao meu lado
– Eu já venho..."

Antonio Lobo Antunes

3 comentários:

ETERNUM disse...

Alguem que escreve com força e irreverência...

«Viver é escrever sem borracha, não poder passar a vida a limpo.»

Porque esta é a verdade que deixa fluir nos seus textos intensos e apaixonantes de realismo.

Kanauã Kaluanã disse...

Miguel, até certo ponto, um ensaio biográfico teu. Este texto tinha mesmo de pousar sobre teu dorso, voar até aqui pelas tuas asas: estar no ramo do Pássaro.

Deixo-te outro, para o meu menino:

O cheiro das ondas no instante em que o ar é mais frio que a água.

Normalmente é no terceiro minuto a partir do crepúsculo que o ar da praia é mais frio do que a água. Não no segundo nem no quarto: no terceiro e durante onze segundos, o que requer discernimento, atenção e paciência. O melhor é encostarmo-nos à muralha, de queixo na palma, vigiar as gaivotas, dar fé na mudança de cor no horizonte e nisto, mal o terceiro minuto começa, tira-se a palma do queixo para que o ar poise nela e aí está: pega-se no ar da praia, mete-se no bolso e leva-se para casa sem deixar entornar. Tem de utilizar-se logo visto que no dia seguinte, a partir das dez já o ar aqueceu. Puxa-se com cuidado do bolso e respira-se devagarinho. Quase sempre, então, os pinheiros estremecem e parece existir, nas mulheres da família, uma espécie de vontade de chorar. Não de tristeza, claro: do facto de existir para sempre, dentro delas, um búzio comovido. Só conheci um homem de mãos tão impregnadas de nuvens quanto as suas: o senhor José, duro camponês de Trás-os-Montes, no jardim dos meus pais, a fazer crescer uma flor com dedos humildes, de ossos suaves como o leite, vagarosos, certeiros. Devia ter tido o bom senso de morrer antes dele para que me fechasse os olhos para sempre. Mas descuidei-me e o senhor José lá está no cemitério, humilde, escalavrado, agreste, a fazer corpo com a terra. O seu sorriso sem dentes, a sua bondade, o pobre, gasto corpo destroçado. A língua de pedra o que dirá agora? Nasceu em São Martinho de Anta, chamava-me

- Menino

e era muito mais elegante de alma do que eu, de uma delicadeza ia escrever aristocrática, escrevo aristocrática que não possuí nunca: sou feito de cardos e há palavras que deixei secar dentro de mim ou a vida secou. Claro que vou escrevendo, vou respirando, até me acontece, às vezes, orvalhar-me. Mas escondo. Dantes fechava-me à chave na casa de banho para não ver o meu desespero. Depois abria a porta e saía a assobiar. Há alturas em que assobiar custa imenso. Fazia um esforço, conseguia.

- Como estás?

interrompia o assobio:

- Estou óptimo

e a noite levantava, sem que ninguém notasse, uma revoada tímida de lágrimas. Podia ser melros ou pombos ou assim, insistia

- São melros ou pombos ou assim

mas eram lágrimas. As lágrimas também podem fazer ninhos nas árvores ou nas empenas dos telhados. E no entanto qualquer olhar me descerrava como se descerram dedos: pétala a pétala. Tenham paciência não falem comigo agora. Deixem que os grilos principiem a arder. Senhor José. Ao tirar o chapéu ficava sempre a marca na cabeça. Que indignidade eu ter sido feliz, eu ser às vezes feliz. Em agosto passado fiquei a escutar uma avenca contra o muro e a pensar em ti. A seguir abrandou. Uma avenca seca, quase empalhada, um som murcho, constante. Tornei a assobiar um bocadinho. É quase noite agora. Não está ninguém comigo, os sons começam, a pouco e pouco, a transformar-se. Que pena não existirem oliveiras nesta rua. Descobri uma, num canto do Hospital Miguel Bombarda. De vez em quando paro diante dela, encosto a mão ao tronco, a oliveira chama-me

- Menino

Kanauã Kaluanã disse...

distingo perfeitamente que me chama

- Menino

Não senhor doutor é claro, qual doutor, nunca fui doutor nem quando vagamente o era, chama-me

- Menino

e não sei responder-lhe. O senhor José saberia. De modo que finjo que não dou por nada, demoro-me por ali um bocado, por acanhamento, por delicadeza, vou-me embora. Há-de chegar um dia em que não me irei embora. Tu, que não conheço ainda, ou imagino que não conheço, ajuda-me a ficar. Ocupo pouco espaço, quase não faço barulho, nunca grito, não incomodo ninguém. Leva-me contigo e ajuda-me a ficar. Tenho as ternuras simples mas aos nós. Como as tuas unhas são mais compridas que as minhas desata-me isto tudo. Mãos impregnadas de nuvens, ossos suaves como leite, vagarosos, certeiros. É bom nascer no instante em que o ar é mais frio do que a água. Trouxe-o aqui no bolso para ti. Há-de haver, nalgum sitio, a minha última casa e o senhor José ao longe.

- Menino

no terceiro minuto a partir do crepúsculo, não no segundo nem no quarto, a inventar uma flor. Se não te importas conta-me uma história em que as pessoas se casem no fim.

[António Lobo Antunes]

Porque um dia quero ter a experiência do terceiro minuto a partir do crepúsculo, de mãos dadas contigo!