...
Sinto tantas vezes que não marcho ao mesmo ritmo
E não marcho na mesma direção que o resto das tropas
Como um desalinhado...

João Miguel, O Pássaro do Sul

20/12/2009

Emigrante

Trova do Emigrante

Parte de noite e não olha
Os campos que vai deixar
Todo por dentro a abanar
Como a terra em Agadir
Folha a folha se desfolha
Seu coração ao partir

Não tem sede de aventura
Nem quis a terra distante
A vida o fez viajante
Se busca terras de França
É que a sorte lhe foi dura
E um homem também se cansa

As rugas que o suor cava
Não são rugas são enganos
São perdas lágrimas e danos
De suor por conta alheia
Não compensa nunca paga
Quanto suor se semeia

Em vida vive-se a morte
Se o trabalho não dá fruto
Morre-se em cada minuto
Se o fruto nunca se alcança
Porque lhe foi dura a sorte
Vai para terras de França

Não julguem que vai contente
Leva nos olhos o verde
Dos campos onde se perde
Gente que tudo lhe deu
Parte mas fica presente
Em tudo o que não colheu

Verde campo verde e triste
Em ti ceifou e hoje foi-se
Em ti ceifou mas a foice
Ceifava somente esperança
Nem sempre um homem resiste
Vai para terras de frança

Vai-se um homem vai com ele
A marca de uma raiz
Vai com ele a cicatriz
De um lugar que está vazio
Leva gravada na pele
Um aldeia um campo um rio

Ficam mulheres a chorar
Por aqueles que se foram
Ai lágrimas que se choram
Não fazem qualquer mudança
Já foram donos do mar
Vão para terras de França.

Manuel Alegre

1 comentário:

Kanauã Kaluanã disse...

Miguel, é uma canção?!

Belíssimo, meu anjo!

Ainda sobre Emigrantes...

Olhos molhados,
Navegam nas teias do tempo,
Partem e chegam distantes,
Entre a saudade e a dor.
Mensageiros de uma bandeira,
Rasgam o mundo de mãos vazias,
Aportando em todos os portos,
Transportando bagagens de esperança,
Entre desejos escondidos.
Quem são?
Onde vão?
Gente anónima,
Rostos carregados…
Partem em rios de lágrimas,
Chegam com um abraço de sorrisos.
Sonhos para conquistar,
Nesta vida em mudança,
Turbilhões em becos fechados,
Longe das famílias que amam…
Mais longe ainda…
Onde o olhar não alcança,
O lar que os viu nascer.
Partem para conquistar a vida,
Numa vida para conquistar…
No passado de uma glória,
Vivem o presente…
Sonham com o futuro,
É assim a vida de um emigrante.

[Luis F.]