...
Sinto tantas vezes que não marcho ao mesmo ritmo
E não marcho na mesma direção que o resto das tropas
Como um desalinhado...

João Miguel, O Pássaro do Sul

18/06/2010

Saramago

«ninguém se salva, ninguém se
perde,
É pecado pensar assim,
O pecado não existe, só há morte
e vida,
A vida está antes da morte,
enganas-te Baltazar, a morte vem
antes da vida, morreu quem
fomos, nasce quem somos, por
isso é que não morremos de
vez».

José Saramago in Memorial do Convento

Na ilha por vezes habitada

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

José Saramago

2 comentários:

« Katyuscia Carvalho » disse...

"...porque mordeu a alma até aos
ossos dela."

Não haveria frase mais condizente a ele próprio!

Saramago, que levava o extremo à ponta das palavras, num radicalismo cortante, inquietante, era capaz - como num paradoxo - de nos fazer imergir em imenso estado de ternura diante de uma flor, como no conto infantil do vídeo, ou como no poema que deixo a seguir:

"É tão fundo o silêncio entre as estrelas. Nem o som da palavra se propaga
nem o canto das aves milagrosas. Mas lá, entre as estrelas, onde somos um
astro recriado, é que se ouve o íntimo rumor que abre as rosas."

[José Saramago]

Em mim, ficam registrados os profundos momentos de reflexão que me proporcionou quando emprestava à literatura uma mão e a outra ao humano, num elo feito com seu corpo e mente, e onde me fez mais cidadã e mais consciente quando de alguns poemas como "Desbarato" e "Fala do Velho do Restelo ao Astronauta".

Assim que o "conheci"... assim que ele "fica"-me.

Um beijo em suas mãos.

...

A ti, meu anjo, minha sempre admiração pela capacidade de ires buscar no mais fundo, no mais longe, o que há de sempre mais significativo e "imenor".

Amo-te.

Brancamar disse...

Miguel,

Quero estar aqui, apesar de quem me conhece saber que Saramago não foi, não é o escritor que mais apreciei e aprecio, mas isso não me impede de lamentar a perda e estou a aprender contigo hoje nestes dois posts a lê-lo, sempre se tiram ensinamentos de todo o escritor, de todas as pessoas, em alguns momentos da sua escrita e da sua vida.
Assim, prometo aprender, prometo tentar, tem na definição acima uma frase dele absolutamente coincidente com outra minha - "O pecado não existe", porque também eu não acredito no conceito de pecado e já há muitos anos discuti isso com um padre amigo que não se escandalizou com a ideia.

A sua obra ficará para sempre sem dúvida e a História da Literatura se encarregará de o manter no lugar que lhe fôr devido.

Um grande abraço para ti.
Branca