...
Sinto tantas vezes que não marcho ao mesmo ritmo
E não marcho na mesma direção que o resto das tropas
Como um desalinhado...

João Miguel, O Pássaro do Sul

20/06/2010

A Solidão de Um Sorriso

«a solidão não é viver
só, a solidão é não
sermos capazes de fazer
companhia a alguém ou
a alguma coisa que está
dentro de nós.»

José Saramago
Sorriso, diz-me aqui o dicionário, é o acto de sorrir. E sorrir é rir sem fazer ruído e executando contracção muscular da boca e dos olhos.

O sorriso, meus amigos, é muito mais do que estas pobres definições, e eu pasmo ao imaginar o autor do dicionário no acto de escrever o seu verbete, assim a frio, como se nunca tivesse sorrido na vida. Por aqui se vê até que ponto o que as pessoas fazem pode diferir do que dizem. Caio em completo devaneio e ponho-me a sonhar um dicionário que desse precisamente, exactamente, o sentido das palavras e transformasse em fio-de-prumo a rede em que, na prática de todos os dias, elas nos envolvem.

Não há dois sorrisos iguais. Temos o sorriso de troça, o sorriso superior e o seu contrário humilde, o de ternura, o de cepticismo, o amargo e o irónico, o sorriso de esperança, o de condescendência, o deslumbrado, o de embaraço, e (por que não?) o de quem morre. E há muitos mais. Mas nenhum deles é o Sorriso.

O Sorriso (este, com maiúsculas) vem sempre de longe. É a manifestação de uma sabedoria profunda, não tem nada que ver com as contracções musculares e não cabe numa definição de dicionário. Principia por um leve mover de rosto, às vezes hesitante, por um frémito interior que nasce nas mais secretas camadas do ser. Se move músculos é porque não tem outra maneira de exprimir-se. Mas não terá? Não conhecemos nós sorrisos que são rápidos clarões, como esse brilho súbito e inexplicável que soltam os peixes nas águas fundas? Quando a luz do sol passa sobre os campos ao sabor do vento e da nuvem, que foi que na terra se moveu? E contudo era um sorriso.

José Saramago

3 comentários:

« Katyuscia Carvalho » disse...

Quando morreu o poeta uruguaio Mario Benedetti, Saramago proferiu estas palavras: "o planeta se tornou pequeno para abrigar a emoção das pessoas".
Agora, o planeta fica grande demais com a ausência de palavras que incitavam o "pensar" das pessoas, porque discutir, discordar, proferir e protestar é também "ser". E grande é sempre o vago vazio das reflexões.

O homem polêmico que sabia chorar. Como quando viu seu livro saído das telas de suas mãos pelos olhos do cineasta brasileiro Fernando Meirelles... ou quando
foi citado pelo colombiano Sigifredo López, após este ser libertado pela Farc e expressando sua gratidão à Piedad Córdoba - âncora do movimento "Colombianos Pela Paz" - e a comparou à mulher do médico protagonista do clássico "Ensaio Sobre a Cegueira".
Quem, portanto, sabe "chorar", tem toda propriedade para falar de "sorriso".

« Katyuscia Carvalho » disse...

ERGO UMA ROSA

Ergo uma rosa, e tudo se ilumina
Como a lua nao faz nem o sol pode:
Cobra de luz ardente e enroscada
Ou vento de cabelos que sacode.

Ergo uma rosa, e grito a quantas aves
O céu pontuam de ninhos e de cantos,
Bato no chao a ordem que decide
A uniao dos demos e dos santos.

Ergo uma rosa, um corpo e um destino
Contra o frio da noite que se atreve,
E da seiva da rosa e do meu sangue
Construo perenidade em vida breve.

Ergo uma rosa, e deixo, e abandono
Quanto me doi de magoas e assombros.
Ergo uma rosa, sim, e ouco a vida
Neste cantar das aves nos meus ombros

...

Rosa roja

Alzo una rosa, y todo se ilumina
como no hace la luna ni el sol puede:
serpiente de luz ardiente y enroscada
o viento de cabellos que se mueve.

Alzo una rosa, y grito a cuantas aves
el cielo colorean de nido y de cantos,
en el suelo golpeo la orden que decide
la unión de los demonios y los santos.

Alzo una rosa, un cuerpo y un destino
contra la fría noche que se atreve,
y con savia de rosa y con mi sangre
perennidad construyo en vida breve.

Alzo una rosa, y dejo, y abandono
cuanto me duele de penas y de asombros.
Alzo una rosa, sí, y oigo la vida
en este cantar de las aves en mis hombros.

[José Saramago]

Brancamar disse...

Interessante definição de sorriso, sim não só na terra, como em nós às vezes o sorriso de felicidade é tão profundo que não se expressa nos músculos, mas no brilho de um olhar ou nem isso, muitas vezes até num olhar contemplativo.
Mas, gostei sobretudo da definição de solidão.
UM abraço para ti Miguel e que tenhas um Bom Domingo.
Branca