...
Sinto tantas vezes que não marcho ao mesmo ritmo
E não marcho na mesma direção que o resto das tropas
Como um desalinhado...

João Miguel, O Pássaro do Sul

11/07/2010

In Vitro

"Que estúpido se não sabe que
a infelicidade dos outros é dele
e não se cura de fora..."

Fernando Pessoa

Não os reconheço.
Quem no dia a dia, vive virtualmente. Como neste monitor onde lêem.
Onde quando algo não é belo, mas doí, pede um grito e uma lágrima, clicam e fogem.
Abomino quem é solidário porque fica bem, porque é moda, e cobrem -se in vitro
do que incomoda.
Não me reconheço.
E embora deseje tanto, não ser do lado do preconceito, sou e não resisto...
Em vez de cores, quem se importa. No lugar de religião, quem luta... Ou não!
Peço-me desculpa, mas as forças falham e a compreensão acaba.
Vida tem dois polos, será possível ser "feliz" enquanto alguém for humilhado?
Eu sou dos que não...

João Miguel, O Pássaro do Sul

Eu, quando choro,
não choro eu.
Chora aquilo que nos homens
em todo o tempo sofreu.
As lágrimas são as minhas
mas o choro não é meu.

António Gedeão



O que me preocupa não é o grito dos maus.
É o silêncio dos bons.

Martin Luther King


Vladimir Maiakovski (…./1930):

Na primeira noite, eles se aproximam e colhem uma flor de nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão.
E não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles, entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua, e,
conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.

...

Bertold Brecht (1898-1956):

Primeiro levaram os negros

Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

...

Martin Niemöller, 1933:

Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.
Como não sou judeu, não me incomodei.

No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista.
Como não sou comunista, não me incomodei.

No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico.
Como não sou católico, não me incomodei.

No quarto dia, vieram e me levaram;
já não havia mais ninguém para reclamar…

...

Cláudio Humberto, em 09 Fev 2007:

Primeiro eles roubaram nos sinais, mas não fui eu a vítima,

Depois incendiaram os ônibus, mas eu não estava neles;

Depois fecharam ruas, onde não moro;

Fecharam então o portão da favela, que não habito;

Em seguida arrastaram até a morte uma criança, que não era meu filho…




Sou eu que partindo aos poucos lhes deixo
Uma herança de pragas e animais nocivos.
Sou eu que morrendo lhes segredo o horror
de serem inúteis e ficarem vivos.

José Carlos Ary dos Santos


Obrigado meu anjo...

2 comentários:

BRANCAMAR disse...

Olá João Miguel,

Gostei imenso de ler tudo o que escreves neste post e o que nos trazes de outros autores e como durante muito tempo participei de campanhas da Amnistia Internacional, sei bem do que falas. Sei bem como se me tornava penoso, quando recebia os boletins da Amnistia Internacional com a descrição de casos e situações abomináveis, que não nos podem deixar indiferentes e nos entristecem diáriamente, são um peso na nossa consciência e é impossível passar ao lado de tanto sofrimento.

Bem hajas pelo teu alerta, pela denúncia da simples "bondadezinha" porque fica bem, do que é viver à superfície e não mergulhar na dôr do semelhante.

Adorei ler todos os textos que publicaste e embora conhecesse um ou outro, nunca é demais relê-los porque todos temos tendência a adormecer um pouco neste mundo agressivo em que vivemos, que tende a ser cada vez mais competitivo e egoísta.

Bem hajas.

Tudo de bom para ti, para a Katyuscia, para toda a tua família e amigos.
Que todos vós possam ser essa benção na terra, dos que nunca se esquecem do seu semelhante.

Um abraço de muita amizade.
Branca

« Katyuscia Carvalho » disse...

Comecei a pensar no que postaria neste comentário...

Não parava de pensar no que li naquele pps do Saramago, e terminei com um blog.

O comentário está, então, aqui;

http://www.facebook.com/note.php?created&&suggest&note_id=142901399058252

Um beijo, amor.