...
Sinto tantas vezes que não marcho ao mesmo ritmo
E não marcho na mesma direção que o resto das tropas
Como um desalinhado...

João Miguel, O Pássaro do Sul
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24/10/2010

Sentidos


- Quantos sentidos tens ?
- Não sei !?
- Mas despertas-mos todos...


O perfume denso, quase palpavel da mulher que amo,
abraça-me, aquece-me, grita-me:
- Toca-me!
- Espero-te nos nossos sonhos, somos nossos em todos os estados.
Rendo-me, pesa-me esta lucidez nocturna, sem eco.
- Puxa-me pela mão!
- Seguro-te pelo amor, vem...



Katyuscia & João Miguel

20/02/2010

Já é Tempo...

Temporalidade do Desígnio

Já é tempo de construir o poema,
sentir que tudo foi exposto à crítica
e assim revisitar ocultos locais da mente.
Já é tempo de codificar o estilo,
confrontá-lo com as horas mortas
e reanimar todos os sentimentos vazios.
Já é tempo de atribuir-se condição
e sobrepor-se acima do tédio vital,
reanimando sozinho todas as vicissitudes.
Já é tempo de não contemporizar com os erros
e demonstrá-los na imperfeita tábua da lei,
feita para administrar os mais íntimos conflitos.
Já é tempo de renunciar ao medo e expor-se
aos desígnios do tempo magoados de esperanças.
Já é tempo de retornar ao amor das palavras impronunciadas,
readquirindo confiança na sabedoria das sílabas tortas
e novamente sentir a febre de quem recomeça a vida
com a certeza de estiolar novas e gradativas angústias
em meio ao torpor das inutilidades,
fazendo-se monge da solidão e confessor de si mesmo
e fugir para o desvão das ruas noturnas e becos absconsos.
Somente assim será possível a reconstrução tão almejada
de reflorescer no presente as esperanças mortas do passado
que ainda insistem em sobreviver de alegorias
e expectativas elementares que se iniciam
com a nitidez das auroras e fundam-se
com o ácido arrebol das ilusões partidas.
Já é tempo de recomeçar a viver mais uma vez
cultivando sonhos e recusando realidades
e deste modo retornar tranqüilo e confiante
ao deserto onírico das mágoas crepusculares
tão sábias em tecer enigmas e decifrar antigos sofrimentos.

Jorge Nascimento
O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessoa; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade… sei lá de quê!

Florbela Espanca

Nós somos assim, não é Mulher?

Já é tempo!
O Nosso Tempo!

03/10/2009

ÉS...




Corres-me as veias, sou amnésia do mundo, memória do beijo que te dei, no dia em que o sol nasceu em teu ventre.
Não sei o passado, nâo o adivinho. O futuro que vivemos, não me interessa, entre ti e mim, o tempo, tem o espaço do circulo que se toca em todos os pontos, e o nosso presente dura desde que ser, há, até que ser, seja.
Apagas todas as medidas a cada golpe do teu olhar, o sangue que jorro sempre que me trespassas à muito diluiu os numeros que esqueci.
Sabemos, sem o ter lido, que tudo está diluido, o or da dor está no calor amarelo de todas as alegrias e no amor que sinto, e a nossa idade, raiz, está tanto na felicidade, como na humidade deixada nas margens molhadas das lagrimas que transbordam à sua passagem, fertilizando tudo que é nosso e que queremos viver, unos.
Tu és, e sempre que a tua mão entra no meu peito e o obriga a falar, ouves: És!
És a água da minha sede, que brota pura sempre mais seca. És fe. Fera, fémea, febre que se esgota, quando sou campo tão seco que tu só sabes ser diluvio universal de mim. És e sabes, és e és, és e sabes sê-lo, conheces a impossibilidade de não ser.
És e sou, porque só seria contigo, minha terra, minha chuva, paz, ninho e mulher.

João Miguel, O Pássaro do Sul

07/09/2009

Aguas


Tocar-te
mergulho amniotico
no ventre prenhe da vida
que será

Beijar-te
voo intra-uterino
no atantico querer
que é

Ter-te
explosão fecunda
do fluxo confluente das aguas
que somos

João Miguel, O Pássaro do Sul

18/08/2009

Caminho



Os ramos afiados nos instantes
tingem tanta vez a pele de dor
A areia cuspida pelas horas que não passam
cegam sem conta, força e vontade
Afogados nos caudais dos olhos
tocamos as pedras cortantes
semi escondidas nos leitos da cidade
e as emboscadas de ilusões em molhos
lançam-nos sobre as ideias a rede que rouba a cor
São as trevas do caminho
Mas há o Sol verde onde nos deitamos
cicatrizando a tinta amarela de fel
e atrás da rocha do querer tanto
o peito vê para lá do saber, o ninho
seco e quente, intuido nos escritos da pele
intemporalmente desenhados no manto
de quem crê ser capaz de ouvir o sabor
do final da caminhada, sal rouco de mel
do meu e do teu rio, paralelos eramos
confluentes somos, sangue e breu, nossa cor

João Miguel, O Pássaro do Sul