...
Sinto tantas vezes que não marcho ao mesmo ritmo
E não marcho na mesma direção que o resto das tropas
Como um desalinhado...

João Miguel, O Pássaro do Sul

14/02/2010

Veio Tudo de Longe

Veio tudo de longe para ser
uma só coisa, nupcial e magnífica.
Caminho e tenda. O mar. Livros. A indizível
matéria da dor. Ternura
cercada e repartida, pouco
a pouco, à mesa rápida
dos lábios, clandestina voz baixa
das mãos juntas. Sobreviventes
de invernos, dúvidas, denúncias.
E o teu sorriso honrado. A oferta
duplicada e vulcânica
dos seios. Esta noite que nos pôs
à prova. Sobre o vento e o repouso
do vento. E a música ainda cheia
de muitos outros quartos. Sim, a importância
do teu rosto: alvo claro deste mês
desmedido que nós somos.

Veio tudo de longe para ser
uma só coisa, sagrada e partilhável.

O banho comum gradual e abundante
dos sentidos. As faces que só tenho
entre o convívio doce dos teus dedos
sempre em férias. E a chave
do desejo. Erecta dureza doadora
do óleo e da viagem
aos lugares da origem
e do êxtase. Resposta
da terra contra a terra.

E a surpresa ensina e desvenda
as partes mais antigas da alegria
dupla, densa, nadadora, nossa.

Vítor Matos e Sá
Sou teu! Amo-te Onça...

3 comentários:

Kanauã Kaluanã disse...

É tão ruidoso aquele bater do vento nas mãos
é tão límpido também aquele cheiro nauseante da aguarrás

poderia dizer-te vem e vamos pegar fogo a esta casa
e mudamo-nos para aquele canto
pôr nas palavras o pastoso sabor da cor
e passar pelo corpo os pincéis e a língua
embebedarmo-nos com terebentina tomarmos mescalina
e outras coisas felizes compradas na feira
nas radiantes tardes naquele estúdio pequeno em frente ao mar
é tão ruidosa a existência de alguma coisa que começa
as telas encaixotadas a caminho de Bombaim
vão todas a arder mas não faz mal
é tão límpida cada mancha nos teus dedos
poderia envolver-me nos braços em teu redor
perguntar-te queres café compor-te o cabelo
enquanto pintavas a noite nas paredes

é tudo tão ruidoso tão repentino
que não houve tempo de escolher as cortinas
com outros cuidados desculpa
também elas se põem todas a arder mas não faz mal
poderia pedir-te que me dissesses um poema longo
perguntar-te queres café compor-te o cabelo
enquanto escrevias os meus braços nas paredes
com marteladas fundas mas delicadas

nas paredes daquele pequeno estúdio em frente ao mar
há um ruído muito nosso
que passa em todas as estações de rádio e ninguém ouve
em todas as gasolineiras e ninguém ouve
em todas as tribunas e ninguém ouve
ele cabe ali naquele caos naquele vislumbre
e também ele se põe todo a arder mas não faz mal

o teu corpo é uma luva onde entro quando entras
uma luva à prova da bala que arde violentamente
à nossa procura
na pequena galeria dos cristais de sangue
a poesia acontece disparar abrir fogo
e o universo, naquele pequeno estúdio em frente ao mar,
não precisa de um desenho para nascer
quando dizes estou aqui a sorrir
e pegas na minha mão para o passeio habitual
depois de vestirmos os casacos de lã.

Ana Salomé

E arderemos na neve!
Amo-te, meu homem!!!

Poemas absurdamente lindos os que te encontram... [sim, porque acho mesmo que alguns vêm a ti por atração, ou "intuição"!]

Tua onça, que só tu serenizas.

Canteiro Pessoal disse...

Pássaro,

que espaço de impacto. O que dizer? Se tuas palavras são a expressão de amor e vida rasgada. Vida desnudada!

Parabéns por ser este homem que se expõe e não atua machismo, mas espírito de fêmea nas entranhas. Que reconhece o tanque da mulher amada.

Paz,

Priscila Cáliga

Brancamar disse...

Passo por cá a maior parte das vezes sem saber como expressar o que sinto, porque tudo aqui é tão bem conjugado, imagem, poesia, vida, amor...!
E o que é a vida, senão amor?!
E que escolhas poéticas...! Como diz Katyuscia, os poemas parecem vir a si por atracção e que bem ela o sabe dizer!
E logo na entrada foi uma atracção para mim ler Eugénio de Andrade, que adoro.
Aqui, como lá, no sítio da bela Katyuscia, sentimos que entramos num templo sagrado de aprendizagem literária, acompanhada de grandes lições de vida e amor.
Vós sois o céu e fazeis sentirmo-nos nele.
Beijinhos.
Com amizade.
Branca