...
Sinto tantas vezes que não marcho ao mesmo ritmo
E não marcho na mesma direção que o resto das tropas
Como um desalinhado...

João Miguel, O Pássaro do Sul

23/10/2010

Indiferença

Amo ou venero poucas pessoas.
Por todo o resto,
tenho vergonha da minha indiferença.
Mas aqueles que amo,
nada jamais conseguirá fazer
com que eu deixe de amá-los,
nem eu próprio e principalmente
nem eles mesmos.

Albert Camus
Ao contrário de Camus, não consigo ser indiferente, mas confesso que gostaria. E esta minha incapacidade, faz crescer em mim a frequência do olhar cruel com que mato a cada passagem, quem parece nem sequer exercitar por cinco minutos as meninges. A crueldade do meu pensamento e este sorriso assassino e interior, às vezes voltam-se para mim, detesto o preconceito em todas as formas e confesso, travo uma luta com ele, por criar algum contra quem é preconceituoso intelectualmente, por quem assume o papel de big brother, por quem simplesmente não tem a capacidade de abertura a novas ideias e maneiras de pensar, não para aceitá-las, isso seria imposição, mas tão simplesmente, para perceber que existem e as suas razões de ser...
O que convejamos, faz com que todas as escolhas sejam mais conscientes, só mais, consciência plena, só com conhecimento pleno, e não apregoo utopias, mas como amaria mais, se de vez em quando abraçassem uma
Mas algo existe de muito bom em não conseguir ficar indiferente, e é o facto de notar as mudanças nas pessoas à minha volta. Umas vezes são aquelas que parecem luzir e com o tempo se apagam, a maior parte das vezes aqueles que exibindo uma certa cultura, um modo de pensar, uma pseudo-intelectualidade se mostram ao pouco ocos, aqueles com quem sonhava aprender algo e... nada!
Mas outras vezes e falando de estados mais positivos, aparecem aos poucos aquelas que primeiro pareciam fúteis, inócuas, vazias, sem interesses e sem interesse e que repentinamente num passo de mágica parecem nascidos, brilhantes no firmamento. Mas as mais puras, que acabo venerando, são as que se mostram tal qual são, sem medo da sua opinião, sem se esconderem, expondo, debatendo, vivendo, iluminando-me, pelas ultimas, as que me surpreendem, as que são, vale a pena...

Gosto essencialmente de gente com coragem de ter a sua opinião,
com o espírito sempre aberto a aprender, dialogar respeitando e
com coragem para assumir uma nova opinião e defendê-la.

Não gosto de preconceitos, sejam quais forem, sejam de género, culturais,
regionais, sociais, de status, de cor, educacionais, políticos ou religiosos.

Todos temos a aprender e a ensinar.

Mas quanto ao resto e sem querer plagiar Camus, eu teria escrito assim;



"Amo, adoro, venero, muito poucas pessoas,
tenho vergonha da minha falta de capacidade de ser indiferente,
e da crueldade com que olho os que me queria indiferentes...
Quanto aos que amo, adoro, venero, é com o peito todo.
Porque apaixono-me por ideias, arte, mas das pessoas
enamoro-me, e isso é com a alma pulsando de sangue..."

João Miguel, O Pássaro do Sul

2 comentários:

« Katyuscia Carvalho » disse...

Merecia muito mesmo vir para o Pássaro do Sul como post este teu "dialogar" com Camus, abstraindo uma reflexão de forte impacto, de tão nua, crua, franca, como deve ser sempre a pele exposta da verdade.

Amo-te tanto.

Jussara Petry - (Ponte, Passagem, Encontro) disse...

Ao ler-te, sinto minha alma em chamas, flamejando no vermelhidão da entrega da indiferença perante a diferença que faz toda a diferença entre não só amar,mas, amar mais...
Lindo texto.