...
Sinto tantas vezes que não marcho ao mesmo ritmo
E não marcho na mesma direção que o resto das tropas
Como um desalinhado...

João Miguel, O Pássaro do Sul

24/10/2010

Sentir

Sinto que para o ser consciente, a felicidade completa é utópica.
Quanto mais consciente, mais inalcançavel.
Sou feliz o quanto posso, as dores à minha volta...
Condoem-me.
Por isso mais que o desejo íntimo, de viver muito, longamente,
tenho o medo assustador de não viver tudo.
Acredito, sinto interiormente, que quem vive tudo,
não tem medo de enfrentar a morte, aquela torna-se lhe natural...
Quero pensar até tocar o horizonte vermelho do sol cansado,
sentir até os rios transbordarem de sangue as margens secas,
ser palavra, acto, peito, opinião e sémen, até não poder mais,
viver tudo, tanto, à exaustão, até a face da morte ser doce...
Mergulhar no lado de dentro da vida,
e nela buscar o que de mais próximo
houver à morte,
para repousar,
despertar com o grito mais alto
de quem eleva o pensamento
até ao ensurdecer...
E penso nos meus olhos.
Somos uma maioria de água e carbono e vejo!
Vejo e no fundo sou lama.
A vida é magia.
Sentir é divino.

João Miguel, O Pássaro do Sul

2 comentários:

« Katyuscia Carvalho » disse...

Todos querem a felicidade como a um seguro-de-vida. Blasfemam, flertam, facilitam-se… e desviam-se de desfiladeiros. Entendem-na como desprovida de impurezas, de incertezas, e se esquivam de suas garras. Felicidade requer sujar o rosto de pó de coragem para depois lamber o labor e o sabor que tem. Nunca saber se o medo salta da próxima moita. Nem quem atirará a próxima pedra. E seguir mesmo quando for noite. Mesmo quando o norte se for. Mesmo quando se for só sombra – sem água fresca. Escrevo o que vejo, o pouco que aprendo sobre as muitas que sou, mas sobretudo o que me apercebe a sensibilidade acerca dos outros. Renego inatitudes sem negar rasgos. As insatisfações que me ferem não são apenas as minhas, já que me sei um corpo na aura do mundo. Sinto tudo com os cinco dedos e os seis sentidos. E mais um olho que me faz parar tantas vezes para chorar com toda a força. Minha admiração é pelos que ousam. Felicidade eu quero-a com tudo que a constrói, com os calos todos, com as fendas, mas não com o frio afago ou o falso fogo que faz à alma de quem a toca com língua morna. Mormaço no corpo não aquece para além do efêmero. Calor pelo que é humano, sim. Não a quero, ainda, se desarmada de ávida luta, em fácil audácia de possuí-la. Quero-a feroz, fera indomada, como quem não passa pela existência suspirando apenas a um final feliz.

"Tenho medo de morrer depois da morte
Tenho medo de morrer antes da vida."

[Daniel Faria]

BRANCAMAR disse...

Divino é tudo o que escreveste aqui João Miguel, Divino é ter essa percepção da vida e da morte e senti-las assim tão próximas e tão naturais.

Beijos
Branca